Sou um carioca assim meio atípico. Não gosto de aglomerações, saio pouco hoje e não sou muito fã de futebol; e para atipificar ainda mais, amo nossas polícias como instituições.

Agora ao ver uma reportagem na Rede TV sobre uma ação da Polícia Civil e da Polícia Militar no Complexo de favelas do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, incrustado no coração da Zona Sul fiquei morto de vergonha.

O coturno de um policial militar não deixava nada a dever a qualquer sapato do pior mendigo que anda pelas ruas de nossas cidade. Rasgado, gasto, com partes da meia à mostra, enfim o retrato de um militar, guerreiro por certo, senão lá não estaria nesta ação, que não recebe seu fardamento há anos e é obrigado a retirar de seu parco salário o dinheiro para comprar farda e coturnos.

Uma vergonha para a PM, uma vergonha para a Unidade do policial (o GEPAE, o qual não canso de criticar…) e uma vergonha para os cariocas.

Como se não bastasse, a reportagem da Rede TV ainda exibiu as ‘belíssimas’ dependências do PPC do GPAE lá no Pavãozinho… .

Digno de um mendigo também… .

Sem nenhuma conservação, paredes úmidas e imundas, camas que mais pareciam catres da época medieval, um local escuro e insalubre, com paredes finas e portas e janelas caindo aos pedaços.

E na fachada deste ‘belo, aprazível e operativo’ local as inscrições que o identificavam como sede de uma ‘Unidade’ da PM. Como uma polícia e um governo podem almejar combater de fato a criminalidade organizada, bem armada, com condições deste tipo ?

Como uma polícia pode se fazer respeitar andando com trajes rotos e baseando-se em um local assemelhado a um túmulo de cemitério de periferia ?

Fiquei envergonhado de verdade. Imaginei o que não se fala desses policias e da PM no interior da comunidade por eles se apresentarem e se basearem nestas condições tão deploráveis… .

Certamente aquele coturno rasgado não é o com que o policial se apresenta em sua Unidade, pois certamente se o fizesse, ainda que não receba fardamento, seria punido. Aquele coturno de fazer corar velhinhas em praça pública deve ser seu ‘coturno de guerra’, usado no dia a dia para correr atrás dos traficantes nas favelas sem gastar ou rasgar aquele outro, e único, coturno novo que ele tem para se apresentar aos seus superiores.

Um coturno novo custa caro… .

Há anos lutamos pelo fim dos PPCs e dos DPOs na imensa maioria das favelas cariocas pela absoluta inutilidade dos mesmos.Há anos, desde que o GPAE surgiu, acompanhamos seu desenvolvimento e sua ‘impressionante’ ineficácia. Até no Cavalão, em Niterói, onde o GPAE tinha angariado a fama de haver acabado com o tráfico já tivemos um promotor seqüestrado e torturado por traficantes dias atrás.

Quando vejo cenas como estas sendo exibidas a nível nacional por uma emissora de TV em seu principal telejornal me sinto constrangido e envergonhado.

Sinto-me assim me vendo em cada PM que vai para as ruas ganhando um salário de miséria e tendo que trajar-se quase como um mendigo para cumprir sua missão de guerreiro.

Pois os que não são guerreiros, têm dinheiro suficiente para se fardarem bem e adequadamente e utilizarem, para fins inconfessáveis, os equipamentos e armas mais modernos… .

A estes, os nossos guerreiros e heróis anônimos do dia a dia a homenagem de um carioca envergonhado.

Autor: Segadas Vianna

O texto abaixo pertence ao jornalista e escritor João Ximenes, que questiona a idéia popularizada pelo filme “Tropa de Elite”, de que quem consome drogas financia a violência. Colunista do caderno Ela, do GLOBO, e autor dos livros “Porra” e “Juízo”, Ximenes escreveu hoje no blog do Jorge Antônio Barros (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/) um texto abordando uma realidade nem sempre enxergada pelas vertentes mais conservadoras da sociedade.

“Fiquei até sem graça quando o Jorge me deu a honra de citar um trecho de uma mera crônica de costumes neste blog freqüentado por especialistas em violência urbana. Só queria esclarecer duas coisas: não sou especialista em nadica de nada e não discuto a frase “quem consome drogas financia a violência”. Nunca neguei que seja verdadeira. Só não entendo qual a sua utilidade. 
Todos concordamos que, no Rio, quem consome drogas financia a violência. Mas e daí?  “E daí” no sentido literal de “e o que vem depois”? Quando alguém brada tal frase, exatamente o que está querendo ou esperando que aconteça? Que todos os usuários de drogas parem automaticamente de consumir, é isso? Poxa, seria bacana se acontecesse. Apenas não acredito nessa possibilidade. Não por ser pessimista, mas porque acho irreal estabelecermos como meta um estágio nunca alcançado por outra sociedade. Não há um grande centro urbano onde não haja consumo de drogas para termos como exemplo a ser seguido.

Por outro lado, conheço várias cidades onde há tanto ou mais consumidores que no Rio de Janeiro sem que isso afete o dia-a-dia do cidadão que não se envolve com eles. Cidades onde drogas são questão de saúde pública. Onde até se vê viciados em crack ou heroína cometendo pequenos furtos – eventualmente latrocínios – para sustentar o vício, mas não se vê traficantes fechando comércio, incendiando ônibus, andando à luz do dia com armas de guerra, trocando tiros entre si ou com a polícia no meio do povo. Cidades onde os traficantes fazem o que qualquer traficante faz, exceto o carioca e o colombiano: trabalha discretamente, com o mínimo de violência possível para chamar o mínimo de atenção possível, e assim poder vender mais.

Por isso me parece muito mais lógico que, em vez de ficarmos repetindo o slogan “quem consome drogas financia a violência”, deveríamos tentar entender o diferencial, a especificidade do porquê do tráfico no Rio ser tão ostensivamente violento, mais que em qualquer outro lugar do mundo. Por que há consumidores? Consumidores também os há em Berlim, por exemplo, mas não há violência atrelada ao tráfico. Dizer que quem compra drogas financia a violência é uma verdade, mas está muito longe de ser uma explicação para o que acontece no Rio, e mais longe ainda de ser uma solução.

Sem falar que essa idéia de “culpar” ou “responsabilizar” o consumidor começou a ser amplamente divulgada pelo sr. Anthony Garotinho durante sua trágica gestão como secretário de Segurança, o que me reforça a sensação de ser um slogan verdadeiro, mas que nada explica ou soluciona, apenas serve para desviar a atenção do que deveria ser o verdadeiro foco da discussão sobre a violência pública no Rio.

E qual o foco? A meu ver deveria estar na incompetência e na corrupção de governantes que, ao longo de décadas, permitiram que se instalasse um poder armado em áreas onde grande parte da população da cidade ficou e fica desassistida de emprego, transporte, saúde, educação, Justiça, distribuição de renda e, sobretudo, segurança. Em tais condições, mesmo sem o consumo de drogas, o dito poder paralelo teria se formado e se armado – assaltando, seqüestrando, roubando. O tráfico é apenas uma faceta da nossa bandidagem, e o consumidor de drogas tem sua responsabilidade no caos que estamos vivendo, sim, mas não é a origem dele.

Compreendo os leitores do blog que ficaram indignados com o trecho de minha crônica destacado pelo Jorge. Nunca quis livrar a cara dos consumidores. Só acho que enquanto a gente deixar presidentes, ministros, governadores, prefeitos, vereadores, senadores, deputados e policiais apontarem o dedo aos usuários só para livrar a deles, o Rio vai continuar a mesma bosta que está.”

Alguns países estão adotando alternativas interessantes para o problema da carceragem, como módulos em uma base flutuante (foto acima). Seria uma boa idéia para ser adotada no Brasil.

Floating Prisons, and Other Miniature Prefabricated Islands of Carceral Territoriality
http://subtopia.blogspot.com/2008/01/floating-prisons-and-other-miniature.html