O texto abaixo pertence ao jornalista e escritor João Ximenes, que questiona a idéia popularizada pelo filme “Tropa de Elite”, de que quem consome drogas financia a violência. Colunista do caderno Ela, do GLOBO, e autor dos livros “Porra” e “Juízo”, Ximenes escreveu hoje no blog do Jorge Antônio Barros (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/) um texto abordando uma realidade nem sempre enxergada pelas vertentes mais conservadoras da sociedade.

“Fiquei até sem graça quando o Jorge me deu a honra de citar um trecho de uma mera crônica de costumes neste blog freqüentado por especialistas em violência urbana. Só queria esclarecer duas coisas: não sou especialista em nadica de nada e não discuto a frase “quem consome drogas financia a violência”. Nunca neguei que seja verdadeira. Só não entendo qual a sua utilidade. 
Todos concordamos que, no Rio, quem consome drogas financia a violência. Mas e daí?  “E daí” no sentido literal de “e o que vem depois”? Quando alguém brada tal frase, exatamente o que está querendo ou esperando que aconteça? Que todos os usuários de drogas parem automaticamente de consumir, é isso? Poxa, seria bacana se acontecesse. Apenas não acredito nessa possibilidade. Não por ser pessimista, mas porque acho irreal estabelecermos como meta um estágio nunca alcançado por outra sociedade. Não há um grande centro urbano onde não haja consumo de drogas para termos como exemplo a ser seguido.

Por outro lado, conheço várias cidades onde há tanto ou mais consumidores que no Rio de Janeiro sem que isso afete o dia-a-dia do cidadão que não se envolve com eles. Cidades onde drogas são questão de saúde pública. Onde até se vê viciados em crack ou heroína cometendo pequenos furtos – eventualmente latrocínios – para sustentar o vício, mas não se vê traficantes fechando comércio, incendiando ônibus, andando à luz do dia com armas de guerra, trocando tiros entre si ou com a polícia no meio do povo. Cidades onde os traficantes fazem o que qualquer traficante faz, exceto o carioca e o colombiano: trabalha discretamente, com o mínimo de violência possível para chamar o mínimo de atenção possível, e assim poder vender mais.

Por isso me parece muito mais lógico que, em vez de ficarmos repetindo o slogan “quem consome drogas financia a violência”, deveríamos tentar entender o diferencial, a especificidade do porquê do tráfico no Rio ser tão ostensivamente violento, mais que em qualquer outro lugar do mundo. Por que há consumidores? Consumidores também os há em Berlim, por exemplo, mas não há violência atrelada ao tráfico. Dizer que quem compra drogas financia a violência é uma verdade, mas está muito longe de ser uma explicação para o que acontece no Rio, e mais longe ainda de ser uma solução.

Sem falar que essa idéia de “culpar” ou “responsabilizar” o consumidor começou a ser amplamente divulgada pelo sr. Anthony Garotinho durante sua trágica gestão como secretário de Segurança, o que me reforça a sensação de ser um slogan verdadeiro, mas que nada explica ou soluciona, apenas serve para desviar a atenção do que deveria ser o verdadeiro foco da discussão sobre a violência pública no Rio.

E qual o foco? A meu ver deveria estar na incompetência e na corrupção de governantes que, ao longo de décadas, permitiram que se instalasse um poder armado em áreas onde grande parte da população da cidade ficou e fica desassistida de emprego, transporte, saúde, educação, Justiça, distribuição de renda e, sobretudo, segurança. Em tais condições, mesmo sem o consumo de drogas, o dito poder paralelo teria se formado e se armado – assaltando, seqüestrando, roubando. O tráfico é apenas uma faceta da nossa bandidagem, e o consumidor de drogas tem sua responsabilidade no caos que estamos vivendo, sim, mas não é a origem dele.

Compreendo os leitores do blog que ficaram indignados com o trecho de minha crônica destacado pelo Jorge. Nunca quis livrar a cara dos consumidores. Só acho que enquanto a gente deixar presidentes, ministros, governadores, prefeitos, vereadores, senadores, deputados e policiais apontarem o dedo aos usuários só para livrar a deles, o Rio vai continuar a mesma bosta que está.”